Amazônia Nossa


Mudanças climáticas

 

 

De certa feita, ouvi um comentário de um amigo sobre os males que podem causar ao homem a ingestão de certos alimentos. Acabara de ler uma notícia de que pesquisas recentes davam conta que a margarina faria mais danos ao organismo que a manteiga. Esta notícia desmentia conhecimentos anteriores que afirmavam o contrário.

Levantou o rosto, deu uma baforada e sarcasticamente comentou: ainda vou ver o dia em que os cientistas vão afirmar que o cigarro traz benefícios ao homem. A boutade, seguramente, referia-se a este vai-vem de pesquisas, ora a mostrar o que faz bem à saúde e depois novas pesquisas desmentindo. Verdades e mentiras pululam, na maioria das situações, a serviço de interesses nem tanto nobres.

Isto me ocorreu a respeito de que, apesar da esperança do meu amigo, não há mais nenhuma dúvida que o cigarro faz mal à saúde. Isto é uma questão fora de discussão. Todavia, lembro que até recentemente, pelo menos antes de algumas pesquisas, um conjunto razoável de pessoas, se não defendia a tese de que o cigarro não fazia mal ao homem, pelo menos colocava em dúvida esta certeza ululante, como bem diria o tricolor Nelson Rodrigues.

Isto posto, chamo a atenção para a questão das mudanças climáticas. É bem verdade que as informações disponíveis não permitem afirmar categoricamente que os humanos são responsáveis diretos pelas alterações climáticas verificadas nos últimos anos. O furacão Katrina e seca recente na Amazônia são resultados do desmatamento e da emissão maciça de dióxido de carbono na atmosfera? A falta de certeza cientifica, contudo, não permite afirmar o contrario. O certo é que as catástrofes naturais recentes levantam sérias dúvidas quanto a esta questão. A verdade cientifica está demorando, mas creio que ao final e ao cabo será comprovado que, no mínimo, os problemas estão sendo potencializados pela ação do homem no saque aos recursos naturais.

A recente seca na Amazônia, os muitos furações presentes na costa americana mostram claramente uma relação entre a dimensão desses fenômenos e a pressão exercida pelo homem nos ecossistemas em escala global. A outra face dessa questão é a ineficiência e o despreparo dos governantes em lidar com esses fenômenos. As ações são descoordenadas, sem planejamento de longo prazo e, last but not least, a corrupção e a impunidade contribuem para conformar um quadro de desalento e desesperança. As medidas são paliativas, pontuais e, tudo indica, no ano que vem os problemas serão mais graves.

Afinal, é possível assegurar que são simplesmente fenômenos naturais, sem a interferência humana? È difícil afirmar, e aqui me vem à lembrança a história do cigarro. No entanto, a verdade é que os seres humanos na busca de atender a um padrão de desenvolvimento fortemente ancorado no gasto de energias fósseis e produtos naturais causaram nas últimas décadas alterações nos ecossistemas, de tal magnitude que colocou em cheque a possibilidade de combate efetivo à pobreza, à fome e às doenças em escala planetária, aumentando o fosso entre paises ricos e pobres.

Na base disso tudo, impõem-se a lógica irracional do sistema capitalista, cujo processo de acumulação impõe um padrão de produção e consumo que conduz o planeta a um desastre ambiental de dimensões incalculáveis e imprevisíveis. Apesar de tudo, boas almas, que acreditam em Papai Noel e tem medo do monstro da palha, ainda defendem este modelo a nível local, acreditando que os bonzinhos estão de um lado e os maus do outro. A história e a lata do lixo serão testemunhas e juizes dessa história que estamos a participar.

 

 

 



Escrito por Carlito Cavalcanti às 13h31
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O fracasso da Política Ambiental

 

A política ambiental do governo Lula, grosso modo, é marcada fortemente por um tour de force entre dois grupos ideológicos: um dos grupos é formado pelos defensores da idéia de que as políticas ambientais representam um conjunto de restrições ao crescimento da economia. Este grupo argumenta que o tempo gasto para a liberação de projetos é longo e, portanto, não condiz com a pressa que os grandes investimentos requerem. Os estímulos aos grandes investimentos, notadamente nas áreas de mineração, energia, madeira, soja e transportes exercem grande pressão, batendo de frente com os interesses mais gerais da sociedade. A lógica prevalecente é a visão da economia de mercado, ou dito de outra forma, são as idéias da política neoliberal.

 No outro extremo, o conjunto de instituições do meio ambiente, sem força política, tenta exercer minimamente os seus afazeres. No entanto, falha na tentativa de reprimir as queimadas e desmatamento ilegal das empresas madeireiras, dos latifundiários, dos pequenos e grandes produtores e das populações tradicionais. Isto em parte não apenas pelo caráter inexpressivo do ministério, mas, sobremaneira, pela baixa capacidade de fiscalização e punição da corrupção que grassa por varias instituições.

Na contenda referida, o primeiro grupo acumula vitórias após vitórias, enquanto no outro extremo cresce a descrença nos setores responsáveis por uma política de respeito ao meio ambiente. Pouco se fez no campo da pesquisa visando o desenvolvimento do setor biodiversidade/biotecnologia. Sabe-se que para transformar a biodiversidade em riqueza e a valorização dos recursos da floresta são necessários pesados investimentos em pesquisa, tecnologia e infra-estrutura. Todavia, o Brasil parece não dispor de recurso de tal monta. Em razão do quadro exposto, o governo parece sucumbir à pressão pela demanda de madeira exercida pelas grandes empresas do setor. O cenário é de desolação. De terra arrasada. O fracasso da política ambiental, desgraçadamente, é evidente.

Este quadro descrito assume cores trágicas na parte mais ocidental da Amazônia. O extrativismo vegetal, mais especificamente o extrativismo da borracha, nos atuais processos de produção não tem futuro, em virtude de sua baixa rentabilidade. Por outro lado, não se pode negar que na Amazônia um significativo contingente populacional depende da extração vegetal, além, é claro, de sua importância histórica e cultural.

Uma análise superficial, portanto, pode simplesmente reforçar a idéia de que o desenvolvimento da região deve centralizar-se na extração da madeira. O argumento é que essa atividade feita de forma apropriada representaria uma política eficaz de geração de renda, ao mesmo tempo em que preservaria o meio ambiente. O desastre, considerando uma série de elementos, parece iminente.

No caso do Acre, mais especificamente, um dos maiores problemas é que a produção é inexpressiva e, o que é mais grave, o governo fica tateando, fazendo experimentos. No início acreditava no extrativismo como modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia. Em seguida, ao se dar conta de que o modelo preserva, mas não resolve a situação dos seringueiros parece ter desistido da idéia. As denúncias de fome e miséria colocaram uma pá de cal nesta forma de pensar. Concentrou então os esforços na extração da madeira. É claro que este é o mais valorizado dos produtos extrativos. Não fora a degradação e implicações ambientais de sua extração, em conjunto com uma série de outros fatores, tais como: ineficiência de fiscalização  por parte do Estado, corrupção em larga escala nas várias instituições encarregadas das questões ambientais, além de que, a atividade requer altas somas para o inicio da atividade, poder-se-ia pensar nessa atividade econômica como um campo de muitas possibilidades.  Nas condições atuais, no entanto, a retirada da nossa madeira representa um perigo de após alguns anos só restar grandes campos e uma amarga lembrança de uma antiga e bela floresta. 

           O fundamental do exposto é que a Amazônia, mesmo num ambiente de incertezas, desempenha papel estratégico na questão ambiental e, por conseqüência, no desenvolvimento do País. Estas considerações implicam espaço para o governo, sobretudo o estadual, negociar projetos na linha do desenvolvimento sustentável, seja no País, seja no exterior. Por enquanto, ou as políticas estão equivocadas ou as dimensões são tímidas. Se sobra boa vontade de alguns sérios e abnegados servidores, faltam zeros nos bons projetos, falta multiplicar por 1.000 (mil), mais exatamente.

 

 

 



Escrito por Carlito Cavalcanti às 13h28
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Amazônia: o verde ameaçado!

 

A imprensa divulgou à larga noticias revelando as propostas do Governo Federal a respeito da exploração em grande escala da floresta amazônica, através dos denominados contratos de Gestão das Florestas Públicas. As reações das pessoas mais sérias e preocupadas com os destinos da Amazônia foram imediatas, sobretudo no sentido de exigir maiores informações, discutir de forma mais profunda as conseqüências dessa exploração. A participação da população em decisão de tamanha importância é fundamental não apenas por que isto tem a ver com suas vidas, mas, também, pelas implicações e incertezas contidas na referida proposta. Isto, tenho esperança, talvez contenha parcialmente os ímpetos destrutivos dessa ação estatal que representa, em ultima instância, uma tentativa de deixar a exploração econômica da floresta nas mãos das grandes empresas.

Na Amazônia a quantidade de água, o tamanho e largura dos seus rios, a exuberância da floresta com seus mistérios e encantamentos conformam um quadro propicio para a formação de mitos e lendas, desperta um sentimento de fascínio aos que aqui chegam. Para os primeiros europeus, no relato de Artur Reis, a impressão foi de deslumbramento: “a largueza do rio, a grossura de suas águas e de seus afluentes, a floresta densa, cavavam fundas impressões. A Amazônia aprecia-lhes em seus aspectos selvagens, em toda sua grandeza assombrosa.” E continua o relato. “Trata-se de um imenso mundo, rico em matérias-primas, espaço que pode e deve ser ocupado com a velocidade que um empreendimento de tanto vulto e expressão exige, espaço que garantirá, ao Brasil, a potencialidade que ele possui ainda sem a utilização conveniente e salutar”.

Vê-se, com razão, que a Amazônia é um celeiro de mitos, um deles, e este me parece o principal, é o mito da superabundância, que vem desde a chegada dos primeiros europeus. A Amazônia era vista com um grande empório de matérias-primas e isso certamente explica, em grande medida, as políticas e projetos que resultaram em intensos processos de transformações na região: por desmatamento, crescimento urbano, mineração, represas, e uma exploração nunca vista de seus recursos naturais, deixando no seu rastro, um cenário de terras devastadas e formação de bairros miseráveis nas periferias urbanas.

Nesta dura realidade, longe da Finlândia cantada em prosa e versos, a destruição da floresta ocorre numa velocidade tal que evitar a tragédia não é mais uma tarefa para as gerações futuras: é uma tarefa para agora.

Todavia, se tudo acontecer como querem os arautos da modernidade amazônica, em breve não mais existirá a hiléia que tanto encantou Humboldt. Nem tampouco o poeta Thiago de Mello, ao ver a amazônia lá do alto, poderá exclamar: “lá embaixo é o reinado do verde, a grande cor amazônica, cujo poder impregna, em infinitas tonalidades, todos os componentes deste universo que nunca cessa de crescer. O verde está em todas as coisas, em tudo ele transparece. Transparece até no céu, daqui estou vendo: o céu azul profundamente  verde”.

Carlito Cavalcanti

 

 



Escrito por Carlito Cavalcanti às 14h01
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Prometeu, fogo e natureza

 

Diz Prometeu acorrentado, ao narrar seus crimes às ninfas amadas: “dei o fogo aos homens; esse mestre lhes ensinará todas as artes”. Foi o que nos fez a primeira revolução industrial. Antes de tudo, porém, necessário se faz alguns esclarecimentos para que não se perca o fio à meada. Segundo a mitologia, o mundo antes do homem era habitado por deuses e semi-deuses, sendo estes últimos denominados de Titãs. Prometeu era um titã e trouxe o fogo para o homem, assegurando a superioridade sobre os outros animais. Assim, por ter trazido à humanidade o fogo, mas, sobretudo, por ter ensinado a civilização e as artes aos humanos, era considerado amigo da humanidade.

Isto, no entanto foi considerado como uma desobediência a Júpiter e, inevitavelmente, desencadeou a ira dos deuses e dos homens. Júpiter mandou acorrentá-lo num rochedo, onde um abutre lhe arrancava o fígado, que se renovava à medida que era devorado.  Esta tortura teria fim, caso este revelasse um segredo importante a Júpiter. Ao resistir à submissão, tornou-se símbolo da resistência à opressão. Esta alegoria, como está evidente, é rica de ensinamentos e permite muitas ilações, principalmente quando se está disposto a desvendar processos complexos como é o caso da relação homem-natureza.

O historiador Landes, no livro denominado “Prometeu Desacorrentado”, usou esta bela alegoria pra mostrar o espetacular crescimento da produção em decorrência da primeira revolução industrial ocorrida na Inglaterra. A transformação da Grã-Bretanha na “oficina mecânica do mundo”, ocorre em condições muito específicas: no país já não havia um campesinato, já acumulara capitais e tinha dimensões suficientes para investir em equipamentos não muito dispendiosos, formava um incipiente mercado interno e possuía um setor manufatureiro extensivo e bastante desenvolvido, bem como uma estrutura comercial ainda mais desenvolvida.

A revolução ocorre, portanto, em três pilares fundamentais: existência de um mercado interno que era o maior escoadouro para a produção do país e o mercado externo que era muito mais seguro e dinâmico e, por fim, foi essencial o papel do governo. Como a produção têxtil estava vinculada essencialmente ao mercado ultramarino, o mercado externo foi conquistado através da guerra e da colonização. Toda a política externa, mais precisamente a expansão colonialista buscava a ocupação de terras não-ocupadas, visando a criação de novos mercados e a expropriação de matérias-primas.

O fato é que todas as mudanças tecnológicas que se seguiram na esteira da revolução industrial, ao ampliar de forma espetacular a capacidade de produção da indústria, ampliaram também, na mesma magnitude, o potencial de degradação da natureza pelo homem. O modelo civilizacional, baseado no uso intensivo de energias fósseis, resultou no uso dos recursos da natureza numa escala, cuja magnitude ameaça ultrapassar os limites ambientais globais. Hoje parece não haver mais dúvidas quanto a finitude da oferta dos recursos naturais. A terra tem limites e quando seus limites, a “capacidade de carga” (carrying capacity) são ultrapassados, ocorrem os desequilíbrios ambientais, as catástrofes ambientais como estamos a assistir rotineiramente.        

Assim posto, a pilhagem do homem sobre uma riqueza construída e tecida ao longo de 3,5 bilhões pela natureza me faz lembrar Oscar Wilde: decididamente estamos morrendo além das nossas posses.



Escrito por Carlito Cavalcanti às 18h04
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